A importância da leitura de Machado de Assis
Artigo do professor Dutra
fazer com que estudantes de Ensino Médio leiam Machado de Assis
* Por Nelson Dutra
Machado de Assis é um autor de vital importância, atualíssimo, embora o refinamento sutil de seu estilo e de suas narrativas passe, muitas vezes, um tanto despercebido não só pelo estudante de Ensino Médio. Na verdade, Machado integra o conjunto daqueles autores que precisam ser relidos, e, por incrível que pareça, a cada releitura suas obras ganham viço, mais mérito e novos significados. Conforme afirma Antonio Candido, “nas obras dos grandes escritores é mais visível a polivalência do verbo literário. Elas são grandes porque são extremamente ricas de significado, permitindo que cada grupo e cada época encontrem suas obsessões e as suas necessidades de expressão”.
Todos esses fatores colocam o escritor no rol dos clássicos. No caso de Machado de Assis, ele é um paradigma tanto da arte literária como do registro culto em língua portuguesa. Cabe ao professor de literatura do Ensino Médio a tarefa imprescindível de aproximar a linguagem de uma obra clássica, como a de Machado de Assis, ao repertório linguístico do aluno. Mário Quintana disse que um livro é um espelho, em que a linguagem e o universo tanto do autor como do leitor estão num constante jogo desafiador de significantes e de significados. Caso o estudante não se reflita no universo de uma obra, surge aquela famosa expressão: “livro chato”. Perde-se um leitor e, na verdade, quem mais perde é aquele que não entendeu e rejeitou a linguagem.
É necessário, portanto, que o professor medeie o código literário desses autores e o do corpo discente, leia em sala de aula capítulos das obras estudadas, use os meios necessários para despertar o interesse do aluno e para colocá-lo diante do texto.
É importante frisar que a essência da aula de literatura é a leitura e o comentário sobre a obra, e não a exposição intensa e simplificadora da história dos períodos literários. Essa abordagem simplesmente cronológica e historiográfica já foi praticamente abandonada nas principais provas do País, como as do Enem, as das universidades Estaduais e Federais. Enfim, a prática textual não pode ter menor duração que a contextualização ou a abordagem sobre traços biográficos ou históricos. Durante algum tempo, predominou, inclusive no curso de Letras, a linha de estudo que via como mais importante conhecer o pensamento dos teóricos da literatura do que a matriz de toda a teoria: o texto literário.
Dentre a vasta produção machadiana, talvez a mais própria para a leitura em sala de aula seja a coletânea de contos realistas Várias Histórias. Nada impede que se leiam capítulos de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, para citar apenas as mais estudadas. Várias Histórias (1896) é, segundo Alcides Villaça, “um dos poderosos livros de contos da maturidade do escritor (...)”. Machado foi talvez menos revolucionário nesse gênero que no romance (em Memórias Póstumas de Brás Cubas permitiu-se todo tipo de ousadia), mas alguns de seus maiores críticos consideram que a forma do conto cai à perfeição para um escritor que explora a análise detalhista, miúda, de personagens e acontecimentos que se revelam mais nítidos em situações concentradas.
Nos dezesseis contos de Várias Histórias, encontram-se os antológicos A Cartomante, Uns Braços, A Causa Secreta, O Enfermeiro, Conto de Escola, Um Homem Célebre, Um Apólogo. Nesse livro, Machado de Assis recolheu alguns textos que ele já havia publicado em jornais do Rio de Janeiro. Na Advertência, o autor faz o comentário irônico de que “há sempre uma qualidade nos contos, que os torna superiores aos grandes romances, se uns e outros são medíocres: é serem curtos”. Os temas dos contos de Várias Histórias são atualíssimos. Começando pelo de A Causa Secreta, que tem como núcleo a dissimulação do sadismo de Fortunato.
É interessante mostrar que essa perversão é recorrente e visível, por exemplo, em grande parte da programação da mídia sensacionalista, que repercute a tragédia alheia, sentindo o regozijo indisfarçável diante da cumplicidade do público e, principalmente, do aumento do ibope. Já em O Enfermeiro, nota-se a mudança moral cínica do narrador-personagem, Procópio, para desfrutar a herança de um doente irascível, o Coronel Felisberto, que talvez tenha sido morto por Procópio, quando este era enfermeiro e reagiu a um acesso de fúria de Felisberto.
Em Conto de Escola, o narrador Pilar relembra a lição de vida que teve num episódio escolar traumático, descobrindo pela própria experiência a corrupção e a delação. Em Um Homem Célebre,aborda-se ironicamente o descompasso entre uma aptidão, rejeitada pelo protagonista Pestana, e a aspiração impossível da personagem, expressa no conflito do músico Pestana que, apesar de ter o dom de fazer polcas de grande aceitação popular, desvaloriza essa qualidade, preferindo tentar compor música clássica, algo que jamais será realizado.
Nota-se, nesse conto, o tema da insatisfação humana diante da aspiração ao ato completo. Já no título vê-se a ironia, pois o caráter de célebre, atribuído pelo povo ao compositor, não é aceito pelo músico, que se considera um frustrado. Sobre o conflito de Pestana, pergunta Antonio Candido: “Se a fantasia funciona como realidade; se não conseguimos agir senão mutilando o nosso eu, se o que há de mais profundo em nós é no fim de contas a opinião dos outros; se estamos condenados a não atingir o que nos parece realmente valioso, qual a diferença entre o bem e o mal, o justo e o injusto, o certo e o errado?”.
Enfim, na visão crítica de Machado de Assis, ressaltam o pessimismo, a ambiguidade moral, a dissimulação, a ironia, a metalinguagem e a análise psicológica.
Abordando-se um pouco mais analiticamente o conto mais curto talvez da obra machadiana, Um Apólogo, cujo título já indica uma fábula, narrativa de que se depreende um ensinamento moral, vê-se o emprego intenso do discurso direto. O diálogo envolve principalmente uma agulha e um novelo de linha. A discussão dessas personagens gira em torno do próprio grau de importância, qual delas tem mais destaque social. No final da fábula, a agulha metaforiza o trabalhador obscuro e desprestigiado, e o novelo de linha conota o oportunista que vai ao baile no corpo da baronesa, aproveitando-se do trabalho da agulha, deixada para trás no balaio das mucamas. Já a personagem alfinete não abre caminho para ninguém, onde o espetam, ele fica.
Devido à brevidade e à recorrência dos diálogos, esse conto presta-se inclusive à leitura dramática ou até à encenação. A ironia de Um Apólogo é total, pois o que trabalha não desfruta o prazer de ir ao baile, e o que não fez praticamente nenhum esforço tem esse privilégio. Do ponto de vista do novelo de linha, nota-se o desconcerto do mundo, isto é, a desarmonia da situação existencial em relação à expectativa otimista da personagem. Quanto à linguagem do conto, ela é sintética, com períodos curtos, alguns comentários digressivos do narrador, enfim, tipicamente machadiana.
É interessante notar a construção sintática em que aparece o objeto direto preposicionado, dando ênfase à ação, como se nota em “Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha”. Deve-se observar ainda que no diálogo entre as personagens é mudado o tratamento pessoal. Na conversa entre a agulha e o novelo de linha, a forma de tratamento é a terceira pessoa do singular: “Deixe-me, senhora”. Já na fala do alfinete, a forma de tratamento aparece na segunda pessoa do singular, tu: “Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho...”.
Em Várias Histórias, há um outro conto, Viver!, cujo conflito também se instaura pelo diálogo. A conversa ocorre entre Prometeu, mito grego que criou o homem e posteriormente rouba o fogo dos deuses, dando-lhe de presente à sua criatura, e Ahasverus, mito do errante, condenado a viver até o final dos tempos, por empurrar Cristo, quando este levava a cruz. No confronto desse diálogo, que ocorre na época do final do mundo, Prometeu revela a esperança numa nova época que, seguramente, vai surgir. Já Ahasverus demonstra um profundo fastio diante da existência e de qualquer possibilidade de redenção.
Nesse conto alegórico, pode-se ver o debate entre a atitude otimista de Prometeu, diante de uma nova perspectiva de existência, e o niilismo de Ahasverus, que paulatinamente vai sendo minado pelo discurso otimista de Prometeu. Na obra machadiana, de uma maneira geral, aparecem situações, conforme nota Antonio Candido, “onde os destinos e os acontecimentos se organizam segundo uma espécie de encantamento gratuito; quanto às outras, ricas de significado em sua aparente simplicidade, manifestando, com uma enganadora neutralidade de tom, os conflitos essenciais do homem consigo mesmo, com os outros homens, com as classes e os grupos. A visão resultante é poderosa, como esta palestra não seria capaz de sugerir. O melhor que posso fazer é aconselhar a cada um que esqueça o que eu disse, compendiando os críticos, e abra diretamente os livros de Machado de Assis”.
Vamos, então, ao desafio prazeroso e enriquecedor: ler Machado de Assis.
Todos esses fatores colocam o escritor no rol dos clássicos. No caso de Machado de Assis, ele é um paradigma tanto da arte literária como do registro culto em língua portuguesa. Cabe ao professor de literatura do Ensino Médio a tarefa imprescindível de aproximar a linguagem de uma obra clássica, como a de Machado de Assis, ao repertório linguístico do aluno. Mário Quintana disse que um livro é um espelho, em que a linguagem e o universo tanto do autor como do leitor estão num constante jogo desafiador de significantes e de significados. Caso o estudante não se reflita no universo de uma obra, surge aquela famosa expressão: “livro chato”. Perde-se um leitor e, na verdade, quem mais perde é aquele que não entendeu e rejeitou a linguagem.
É necessário, portanto, que o professor medeie o código literário desses autores e o do corpo discente, leia em sala de aula capítulos das obras estudadas, use os meios necessários para despertar o interesse do aluno e para colocá-lo diante do texto.
É importante frisar que a essência da aula de literatura é a leitura e o comentário sobre a obra, e não a exposição intensa e simplificadora da história dos períodos literários. Essa abordagem simplesmente cronológica e historiográfica já foi praticamente abandonada nas principais provas do País, como as do Enem, as das universidades Estaduais e Federais. Enfim, a prática textual não pode ter menor duração que a contextualização ou a abordagem sobre traços biográficos ou históricos. Durante algum tempo, predominou, inclusive no curso de Letras, a linha de estudo que via como mais importante conhecer o pensamento dos teóricos da literatura do que a matriz de toda a teoria: o texto literário.
Dentre a vasta produção machadiana, talvez a mais própria para a leitura em sala de aula seja a coletânea de contos realistas Várias Histórias. Nada impede que se leiam capítulos de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, para citar apenas as mais estudadas. Várias Histórias (1896) é, segundo Alcides Villaça, “um dos poderosos livros de contos da maturidade do escritor (...)”. Machado foi talvez menos revolucionário nesse gênero que no romance (em Memórias Póstumas de Brás Cubas permitiu-se todo tipo de ousadia), mas alguns de seus maiores críticos consideram que a forma do conto cai à perfeição para um escritor que explora a análise detalhista, miúda, de personagens e acontecimentos que se revelam mais nítidos em situações concentradas.
Nos dezesseis contos de Várias Histórias, encontram-se os antológicos A Cartomante, Uns Braços, A Causa Secreta, O Enfermeiro, Conto de Escola, Um Homem Célebre, Um Apólogo. Nesse livro, Machado de Assis recolheu alguns textos que ele já havia publicado em jornais do Rio de Janeiro. Na Advertência, o autor faz o comentário irônico de que “há sempre uma qualidade nos contos, que os torna superiores aos grandes romances, se uns e outros são medíocres: é serem curtos”. Os temas dos contos de Várias Histórias são atualíssimos. Começando pelo de A Causa Secreta, que tem como núcleo a dissimulação do sadismo de Fortunato.
É interessante mostrar que essa perversão é recorrente e visível, por exemplo, em grande parte da programação da mídia sensacionalista, que repercute a tragédia alheia, sentindo o regozijo indisfarçável diante da cumplicidade do público e, principalmente, do aumento do ibope. Já em O Enfermeiro, nota-se a mudança moral cínica do narrador-personagem, Procópio, para desfrutar a herança de um doente irascível, o Coronel Felisberto, que talvez tenha sido morto por Procópio, quando este era enfermeiro e reagiu a um acesso de fúria de Felisberto.
Em Conto de Escola, o narrador Pilar relembra a lição de vida que teve num episódio escolar traumático, descobrindo pela própria experiência a corrupção e a delação. Em Um Homem Célebre,aborda-se ironicamente o descompasso entre uma aptidão, rejeitada pelo protagonista Pestana, e a aspiração impossível da personagem, expressa no conflito do músico Pestana que, apesar de ter o dom de fazer polcas de grande aceitação popular, desvaloriza essa qualidade, preferindo tentar compor música clássica, algo que jamais será realizado.
Nota-se, nesse conto, o tema da insatisfação humana diante da aspiração ao ato completo. Já no título vê-se a ironia, pois o caráter de célebre, atribuído pelo povo ao compositor, não é aceito pelo músico, que se considera um frustrado. Sobre o conflito de Pestana, pergunta Antonio Candido: “Se a fantasia funciona como realidade; se não conseguimos agir senão mutilando o nosso eu, se o que há de mais profundo em nós é no fim de contas a opinião dos outros; se estamos condenados a não atingir o que nos parece realmente valioso, qual a diferença entre o bem e o mal, o justo e o injusto, o certo e o errado?”.
Enfim, na visão crítica de Machado de Assis, ressaltam o pessimismo, a ambiguidade moral, a dissimulação, a ironia, a metalinguagem e a análise psicológica.
Abordando-se um pouco mais analiticamente o conto mais curto talvez da obra machadiana, Um Apólogo, cujo título já indica uma fábula, narrativa de que se depreende um ensinamento moral, vê-se o emprego intenso do discurso direto. O diálogo envolve principalmente uma agulha e um novelo de linha. A discussão dessas personagens gira em torno do próprio grau de importância, qual delas tem mais destaque social. No final da fábula, a agulha metaforiza o trabalhador obscuro e desprestigiado, e o novelo de linha conota o oportunista que vai ao baile no corpo da baronesa, aproveitando-se do trabalho da agulha, deixada para trás no balaio das mucamas. Já a personagem alfinete não abre caminho para ninguém, onde o espetam, ele fica.
Devido à brevidade e à recorrência dos diálogos, esse conto presta-se inclusive à leitura dramática ou até à encenação. A ironia de Um Apólogo é total, pois o que trabalha não desfruta o prazer de ir ao baile, e o que não fez praticamente nenhum esforço tem esse privilégio. Do ponto de vista do novelo de linha, nota-se o desconcerto do mundo, isto é, a desarmonia da situação existencial em relação à expectativa otimista da personagem. Quanto à linguagem do conto, ela é sintética, com períodos curtos, alguns comentários digressivos do narrador, enfim, tipicamente machadiana.
É interessante notar a construção sintática em que aparece o objeto direto preposicionado, dando ênfase à ação, como se nota em “Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha”. Deve-se observar ainda que no diálogo entre as personagens é mudado o tratamento pessoal. Na conversa entre a agulha e o novelo de linha, a forma de tratamento é a terceira pessoa do singular: “Deixe-me, senhora”. Já na fala do alfinete, a forma de tratamento aparece na segunda pessoa do singular, tu: “Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho...”.
Em Várias Histórias, há um outro conto, Viver!, cujo conflito também se instaura pelo diálogo. A conversa ocorre entre Prometeu, mito grego que criou o homem e posteriormente rouba o fogo dos deuses, dando-lhe de presente à sua criatura, e Ahasverus, mito do errante, condenado a viver até o final dos tempos, por empurrar Cristo, quando este levava a cruz. No confronto desse diálogo, que ocorre na época do final do mundo, Prometeu revela a esperança numa nova época que, seguramente, vai surgir. Já Ahasverus demonstra um profundo fastio diante da existência e de qualquer possibilidade de redenção.
Nesse conto alegórico, pode-se ver o debate entre a atitude otimista de Prometeu, diante de uma nova perspectiva de existência, e o niilismo de Ahasverus, que paulatinamente vai sendo minado pelo discurso otimista de Prometeu. Na obra machadiana, de uma maneira geral, aparecem situações, conforme nota Antonio Candido, “onde os destinos e os acontecimentos se organizam segundo uma espécie de encantamento gratuito; quanto às outras, ricas de significado em sua aparente simplicidade, manifestando, com uma enganadora neutralidade de tom, os conflitos essenciais do homem consigo mesmo, com os outros homens, com as classes e os grupos. A visão resultante é poderosa, como esta palestra não seria capaz de sugerir. O melhor que posso fazer é aconselhar a cada um que esqueça o que eu disse, compendiando os críticos, e abra diretamente os livros de Machado de Assis”.
Vamos, então, ao desafio prazeroso e enriquecedor: ler Machado de Assis.
Bibliografia
ASSIS, Machado: Várias Histórias, Ática, São Paulo, 4 ed., 2000.
CANDIDO, Antonio: Esquema de Machado de Assis, in Vários Escritos, Duas Cidades, 1970.
* Nelson Antônio Dutra Rodrigues é graduado em Letras Neolatinas pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH) e mestre em Literatura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atua como professor do Curso e Colégio Objetivo e é autor do livro Os estilos literários e letras de MPB (Arte & Ciência, 2003).
